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Saiba como os idosos com doenças crônicas podem viver com mais qualidade de vida

26. novembro .2020

Saiba como os idosos com doenças crônicas podem viver com mais qualidade de vida

Saiba como os idosos com doenças crônicas podem viver com mais qualidade de vida

Viver é envelhecer, nada mais.” A frase é da escritora Simone de Beauvoir, que faleceu aos 78 anos. Mas o que é envelhecer? O envelhecimento começa a partir do momento em que nascemos, é um processo que vai seguindo seu curso. Sêneca, o filósofo, defendia que a velhice é um processo natural (certíssimo!). O ser humano passa por fases que vão da dependência (quando somos crianças) à autonomia (vida adulta). Porém, na velhice, muitas vezes voltamos à primeira fase, a da dependência, o que exige cuidados e atenção.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica um crescimento e envelhecimento da população brasileira. Segundo a entidade, em 2055 a participação de idosos na soma geral da população será maior que a de crianças e jovens até 29 anos. Em 2050, serão 21 idosos para cada 10 jovens, de acordo com dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). O envelhecimento da população traz impactos importantes na saúde seja na esfera governamental, seja na familiar e mesmo pessoal.

A geriatra Jaqueline Doring Rodrigues, do Valencis Curitiba Hospice, aponta que quando o idoso tem a saúde fragilizada, pode apresentar diversas doenças crônicas. “Os cuidados paliativos devem ser pensados desde o diagnóstico de uma doença crônica, porém torna-se ainda mais importante abordar esse assunto quando se está diante de uma doença crônica que já não se permite realizar um tratamento modificador da doença ou curativo. Também naquele momento em que o idoso se torna dependente dos outros para a maior parte de suas necessidades básicas, como comer ou se locomover, e gradualmente vai reduzindo a sua funcionalidade; este é um indicativo de que está chegando em um momento avançado de sua vida e uma alternativa para amenizar a demanda necessária constitui-se nos espaços dedicados a esse fim”, cita.

Cuidados permanentes

As doenças crônicas são caracterizadas por terem um ponto em comum: são persistentes e necessitam de cuidados permanentes. Dentre elas encontram-se o câncer – muitos tipos surgem com o envelhecimento, doenças cardiovasculares, doenças neurodegenerativas e doenças pulmonares.

“Muitas famílias me perguntam qual o momento de se pensar em cuidados paliativos exclusivos para seus familiares e não há uma resposta pronta para esta pergunta. O fundamental para responder a esta pergunta é termos uma boa comunicação. Podemos dizer que a morte foi institucionalizada, ou seja, distanciou-se esse momento da vida para longe de nossas casas, de nossos olhos. Isso ocorreu por inúmeros fatores e muito dessa responsabilidade deve-se a medicina moderna com seu maior potencial de tratamento e cura.

Porém, o desenvolvimento de diagnósticos e tratamentos sofisticados podem prolongar a vida, mas isso não significa que irá melhorar a qualidade de vida. Muitas vezes ocorre às custas de um elevado custo não monetário ao doente e com uma chance de recuperação mínima. Ainda hoje a maioria dos óbitos de idosos, com complicações relacionadas as suas doenças crônicas, ocorrem dentro de uma unidade de terapia intensiva, com o paciente longe de seus entes, com dispositivos internos – como sonda nasoenteral, sonda vesical de demora ou até mesmo com tubo orotraqueal acoplado à ventilação mecânica. Isso decorre do fato de deixarmos que decisões importantes, quanto o que se gostaria para os últimos dias de vida ou onde e com quem gostaria de estar quando o momento chegar, sejam decididas por profissionais de saúde que na maioria das vezes os atributos que o colocaram em seu posto foram mais técnicos que humanos, e nem sempre estão aptos para fazer as melhores escolhas nesse sentido.”

Escolhas
Dentro deste contexto, quais seriam as melhores escolhas? De acordo com a geriatra, “São aquelas que pesem um raciocínio clínico lúcido e bem embasado sobre as reais possibilidades de reversão da doença e, assim, sobre a indicação ou não de terapêuticas fúteis e obstinadas – às quais, muitas vezes, apenas denotam sofrimento ao invés de uma morte digna e com o apoio devido aos seus familiares.

Nesse sentido um importante diferencial dos centros que cuidam de pacientes em cuidados paliativos (hospices) é que possuem profissionais com essa formação técnica e humana, atentos a todas as dimensões do homem, principalmente no que concerne ao fim de vida. E quando esse acompanhamento vem sendo realizado no consultório precocemente, as questões mais difíceis do final são vividas de forma saudável e com menos conflitos pelos pacientes e por seus familiares.

“O momento ideal para pensar em cuidados paliativos exclusivos objetivamente falando, entre outras indicações, é quando o paciente possui dificuldade para manter suas funções básicas de vida (alimentar-se sozinho, higienizar-se sozinho, vestir-se sozinho, com incontinências ou alterações cognitivas como confusão mental), com necessidade de auxílio contínuo, com maior vulnerabilidade às doenças e a quedas. Isso nos mostra que possui uma dificuldade do organismo em responder ao estresse, resultante de declínios de múltiplos sistemas. E numa situação crítica com risco de vida, a chance de reverter processos patológicos instaurados é ínfima e não vale o risco de não se priorizar cuidados visando exclusivamente a qualidade de vida, com controle impecável de sintomas e com o menor sofrimento. Uma pergunta que pode ser feita é: você se surpreenderia se este paciente morresse nos próximos 12 meses? Se a resposta for não, este já é um grande indicador que devemos priorizar medidas de conforto e cuidados paliativos exclusivos, ou seja, não indicando procedimentos como intubação orotraqueal, priorizando cuidados em enfermaria ou em ambientes especializados, como os hospices”, cita Dra. Jaqueline.

O que mais preocupa a família é a possibilidade de deixar passar alguma chance de reversão da doença ou vivenciar o sofrimento do doente. E essa é a maior preocupação de quem cuida de pacientes com doenças que ameaçam a vida. De fato, há que se ter conhecimento para indicar um procedimento ou uma terapêutica, porém há que se ter ainda mais desse conhecimento e expertise ao não se indicar. Entre outras, essa é a função do geriatra e paliativista, ele estuda para auxiliar nas decisões mais difíceis respaldado pela ciência, pelo que há de mais moderno, sem deixar de lado o humanismo e a naturalidade dos processos que envolvem a vida.

Vivências
“Um caso muito marcante que acompanhei no consultório e depois no internamento do hospice era de uma paciente com boas condições de vida e culturais e que tinha como sua maior preocupação perder a autonomia, ficar dependente e ter sofrimento no momento de sua morte. Sabia da sua doença e de que não havia reversão no seu caso, ainda que mantivesse muita esperança e de forma alguma essa deveria ser esgotada. No dia em que piorou, pediu para ser internada no hospice e levou uma lista das pessoas e do que gostaria que fosse feito, desde citações que gostaria que lessem para ela, música que gostaria de ouvir e a intensidade (baixinho), comida que gostaria de comer, carta de perdão para pessoas distantes e, ainda, o que ela não gostaria que fosse realizado, como sondagens e exames dolorosos. Essa responsabilidade e autonomia permitida a ela até o último momento de sua vida fez com que os familiares se sentissem mais seguros das escolhas, com que ela ficasse tranquila até aquele momento chegar e que pudesse se preparar espiritualmente para o momento final.

Além de nos concentrarmos na reparação da saúde precisamos focar também no sustento da alma. Os cuidados paliativos ao se eximir de tabus diante da morte fazem com que as portas da percepção de outros aspectos sejam abertos. Quando abrimos espaço para falar sobre este assunto, ao contrário do que parece, estamos falando não sobre a morte, mas sobre vida e de como viver bem até o último momento. Isso nos desperta para as questões fundamentais que todos nós devíamos constantemente nos questionar, como o que dá sentido aos nossos dias e o quanto estamos dedicando o nosso tempo para viver com qualidade e com afeto às pessoas. Quando questionado a pacientes em fim de vida sobre o que se arrependem, é unânime a constatação de que os arrependimentos envolvem pessoas e relacionamentos. O quanto podiam ter feito mais. Assim, nunca é tarde para ressignificar a nossa própria vida e compreendermos também a morte.”

No momento da finitude, que também é o de maior vulnerabilidade, dar voz, atender os pedidos e anseios de quem se ama pode ser a melhor atitude a ser tomada por familiares. Um gesto de amor e de respeito valorizando a dignidade humana.

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