Reflexão sobre a finitude da vida e luto

Psicologia
09. maio .2017

Reflexão sobre a finitude da vida e luto

Todo mundo já ouviu aquela frase “a morte é a única certeza que temos em nossas vidas”, mas mesmo assim a maioria das pessoas não está preparada para vivenciar a perda de um ente querido e muito menos falar sobre o assunto.

A maneira de lidar sobre o tema muda conforme o país, religião e questões sociais. Na cultura oriental, por exemplo, a morte é tratada com naturalidade entre os adeptos do budismo, que tem entre um de seus lemas a citação: “Se nos lembrarmos da inevitabilidade da morte geraremos o desejo de usar a nossa preciosa vida de forma significativa”. Algumas passagens da Odisseia, um dos poemas mais épicos da Grécia Antiga, mostram a morte como um ato heroico, onde as pessoas encaram a situação de forma natural e sem sofrimento.

 

De acordo com a psicóloga, Adriane Garcia Salik, “A morte é vista como um grande mal a ser combatido, muitas vezes é necessário que cada sujeito se depare com a possibilidade de sua própria finitude, trabalhar a si mesmo não significa não lutar contra, mas ativa as forças de enfrentamento para os períodos de luto de ausência da pessoa que se ama.”

 

Para a psicóloga, “Entre os grandes problemas que as pessoas se deparam quando estão com uma doença avançada, destaca-se a sensação de não terem aproveitado a vida como deveriam ou que não estiveram presentes na vida do outro como desejavam”. No entanto, a forma e o impacto do luto é diferente para cada pessoa, por essa razão é fundamental que as pessoas ao redor saibam como tratar com a situação. “O luto é muito delicado e depende de vários fatores. Muitas vezes os familiares e amigos não têm uma assessoria do que deva ser feito para aliviar a angústia que assola quem acaba de passar por um processo de perda. O impacto do luto vai depender do papel que aquela pessoa que adoeceu exercia na vida”, expõe.

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Porém, existem casos onde ocorre o luto antecipatório, quando a pessoa ainda não veio a falecer, mas já está sendo trabalhado dentro do seio familiar que o objeto de afeto tão grande pode não estar mais presente na vida. Isso é trabalhado de diversas maneiras pelos pacientes.

“Existem situações onde questões mal resolvidas vêm à tona, nesses casos normalmente o luto pode se tornar mais intensificado na hora de lidar com a ausência do outro.”

 

Um ponto bem importante que deve ser considerado é que o luto trata-se de um processo que o sujeito vai viver um estado melancólico, um estágio de entristecimento e o desejo de estar próximo da pessoa se tornará uma saudade muito grande. “Quando o luto se inicia, dependendo da posição e papéis que o indivíduo exercia na rotina, o sujeito vai ter que se defrontar com diversas situações. Nessa fase é muito controverso o que fazer com a pessoa. Se é necessário medicação ou não. É uma depressão ou não? É muito controverso. A Sociedade Americana de Psiquiatria considera o luto um processo patológico, no sentido que ele precisa ter um olhar especial. Para outras áreas dentro da psicologia, entende-se como um processo necessário. Vivenciar o luto como condição saudável do próprio funcionamento da psique humana. É possível viver a tristeza, aguentar a saudade e deve-se discutir isso com alguém próximo ou procurar por um especialista para conversar sobre o que está passando”, ressalta Adriane.

 

O luto também pode ser tratado como patológico quando vira um complexo persistente, onde aquilo se torna o grande norte da vida do sujeito e isso tem que ser tratado psicologicamente. Também existem casos onde ocorre o aspecto oposto da patologia, ou seja, quando considera que o luto não é nada, quando pessoas próximas que não estão ligadas ao núcleo de dor generalizam a situação e tentam fazer de tudo para tirar o enlutado daquela situação. “Todos devem saber que o luto é um processo natural e que é preciso ser vivido e quem está em volta deve respeitar a situação. É importante se permitir a viver uma reflexão. Viver a vida achando que somos eternos é um engano. Ao contrário do que muitos pensam, pensar no morrer não transforma a vida em algo triste, a transforma em algo muito mais essencial. Temos que dar espaço para esse assunto em nossa vida e não tratá-lo com desmerecimento. Quando conseguimos refletir sobre a nossa própria finitude, entendemos que precisamos aproveitar o hoje, pois amanhã é somente uma hipótese”, finaliza a psicóloga Adriane Garcia Salik.

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