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Setembro Amarelo no contexto da oncologia e dos cuidados paliativos

Psicologia
09. setembro .2020

Setembro Amarelo no contexto da oncologia e dos cuidados paliativos

Setembro Amarelo no contexto da oncologia e dos cuidados paliativos

Suicídio: desesperança frente a situações extremas

A morte é por si só um assunto tabu em nossa sociedade, somado a isso temos a construção do que alguns têm chamado de psicofobia: medo/preconceito contra pessoas que têm um transtorno mental. É curioso e altamente contraditório como nós hoje observamos tantas pessoas sofrendo transtornos mentais, e ao mesmo tempo o quanto se repudia essa ideia e se negligenciam os cuidados necessários.

O suicídio precisa ser olhado a partir dessa perspectiva, não há heroísmo nem covardia, há uma doença mental que leva ao desespero de não ver outra saída senão a própria morte. E esse é um ponto muito importante para ser refletido: esperança. Você sabe o que significa?

A palavra esperança tem sua origem no latim e seu significado está ligado a “confiança em algo positivo”. Daí a variação de desesperança ou desesperar, que significa “perder a esperança”. Aqui vemos que quem perde a esperança de ver uma solução a seus problemas, quem não consegue enxergar saídas, acaba se desesperando – isso pode culminar muitas vezes em uma saída definitiva: o suicídio.

Essa caminhada em relação à origem das palavras para afirmar: o suicida não é culpado de seu ato! Ele age conforme o que consegue ver como uma solução no momento. Por isso também que não devemos culpabilizar seus amigos e familiares (mesmo que sutilmente ou sem a intenção) questionando se eles não perceberam algo de errado antes, se não insistiram o suficiente, se não cuidaram como deveriam… Essas atitudes além de não contribuírem com o acolhimento ao sentimento de perda vivenciado, ainda agregam mais cobranças àqueles que já estão sofrendo.

O que está ao nosso alcance no momento é se atentar a alguns sinais, cientes de que isso não é rígido e nem uma garantia de conseguir identificar ou impedir o ato. Entre possíveis sinais, estão: humor deprimido por tempo prolongado, falar muito sobre a morte e sobre a ausência de vontade de viver, com expressões verbais como: “não vejo sentido em estar vivo”, “não aguento mais”, “nada mais tem importância”, etc., preparativos para a morte (desfazer-se de objetos ou bens pessoais, fazer despedidas e dizer adeus, como se não fosse se manter vivo), apresentar alguns comportamentos de risco com impulsividade e agressividade, aumento do consumo de álcool, drogas ou medicações, afastamento social, mutilações (machucados provocados por si mesmo).

Há ainda uma crença difundida na sociedade de que quando alguém sinaliza a vontade de suicidar-se, ele não praticará o ato. Isto é um mito. Por vezes, o indivíduo com ideação suicida comunica suas vontades como forma de sinalizar que não está bem emocionalmente e solicitar ajuda.

O pensamento, o planejamento e o ato suicida em si são multifatoriais, são complexos e difíceis de serem compreendidos. Não dá para numa situação dessas traçar uma linha simples de causa efeito: “ele está pensando isso por causa daquilo”. Não! É preciso compreender a profundidade do que estamos tratando aqui. Um emaranhado de acontecimentos e marcas afetivas que foram construídas ao longo da trajetória daquele que passa por uma situação dessas.

Oncologia e cuidados paliativos

Falar de suicídio com foco nos pacientes oncológicos se faz de suma importância. Estudos mostram que pacientes acometidos por doenças consideradas graves têm maior chance de apresentarem ideação suicida. Nesse contexto do adoecimento oncológico, isso está ligado às múltiplas alterações que o paciente passa em seu aspecto físico, psicológico e social. Em virtude de tamanho impacto, é essencial que esse indivíduo seja acompanhado por uma equipe multiprofissional que possa fornecer suporte, esclarecimentos e controle de sintomas, tendo como finalidade o bem-estar integral, não negligenciando a condição psíquica desse paciente.

E no contexto dos cuidados paliativos (quando se tem uma doença que ameaça a continuidade da vida) os conteúdos relacionados à ideação suicida podem surgir devido à gravidade da doença e pelos pacientes serem destituídos de sua autonomia, de suas rotinas, de seus planos e então terem prejuízos importantes em sua qualidade de vida como um todo.

Esse é um momento muito delicado em que a família e a equipe multiprofissional devem estar presentes e demonstrar com atos (cuidando dos sintomas, amenizando sofrimento e acolhendo esse paciente) que é possível ter vida, mesmo que ela seja diferente do que ele estava acostumado. Mas é preciso reconhecer a individualidade desses sentimentos, que muitas vezes será preciso ajuda de profissionais de atuam com saúde mental, e que isso não é vergonhoso, não é desmoralizante, não tem nada de errado.

O que se pode fazer diante desses conteúdos?

Há muito o que ser feito tanto na prevenção do suicídio quanto em relação aos familiares enlutados devido a uma perda por suicídio, e o primeiro passo é não tentar achar motivos, mas achar conexões.

Caso você identifique que algum ente querido esteja apresentando ideação suicida ou caso você que esteja lendo esteja se sentindo assim, podemos garantir: há o que ser feito.

Para os familiares e amigos, o primeiro passo é acolher e validar o sofrimento deste individuo, evitando desvalorizar seu sofrimento e o incentivando a procurar auxílio profissional (psicólogos e psiquiatras).

Para você que está vivenciando o processo de ideação suicida: se for possível, compartilhe o que está sentindo com algum amigo ou familiar que você se sinta à vontade e que possa te acolher e te ajudar. Em conjunto com isso, existem profissionais extremamente capacitados para te auxiliar a passar por esse processo, trabalhando em conjunto contigo para a construção de novos caminhos para a diminuição do seu sofrimento.

Nós, profissionais da psicologia, estamos à disposição para oferecer suporte e cuidado, visando sempre o bem-estar do indivíduo e o auxílio nos cuidados de sua saúde mental.

Fonte: Renata Gonçalves, psicóloga clínica no Instituto de Oncologia do Paraná (IOP), e Ronny Kurashiki, psicólogo clínico no Valencis Curitiba Hospice.

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